sábado, 27 de dezembro de 2008

AS COTAS PARA NEGROS: POR QUE MUDEI DE OPINIÃO


Comentário: A imprensa não faz seu papel de ouvir todas as vozes. Opiniões como as do William só escapam assim - pelos blogs.

Do Azenha

AS COTAS PARA NEGROS: POR QUE MUDEI DE OPINIÃO

William Douglas*

Roberto Lyra, Promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, ao lado de Alcântara Machado e Nelson Hungria, recomendava aos colegas de Ministério Público que "antes de se pedir a prisão de alguém deveria se passar um dia na cadeia". Gênio, visionário e à frente de seu tempo, Lyra informava que apenas a experiência viva permite compreender bem uma situação.

Quem procurar meus artigos, verá que no início era contra as cotas para negros, defendendo – com boas razões, eu creio – que seria mais razoável e menos complicado reservá-las apenas para os oriundos de escolas públicas. Escrevo hoje para dizer que não penso mais assim. As cotas para negros também devem existir. E digo mais: a urgência de sua consolidação e aperfeiçoamento é extraordinária.

Embora juiz federal, não me valerei de argumentos jurídicos. A Constituição da República é pródiga em planos de igualdade, de correção de injustiças, de construção de uma sociedade mais justa. Quem quiser, nela encontrará todos os fundamentos que precisa. A Constituição de 1988 pode ser usada como se queira, mas me parece evidente que a sua intenção é, de fato, tornar esse país melhor e mais decente. Desde sempre as leis reservaram privilégios para os abastados, não sendo de se exasperarem as classes dominantes se, umas poucas vezes ao menos, sesmarias, capitanias hereditárias, cartórios e financiamentos se dirigirem aos mais necessitados.

Não me valerei de argumentos técnicos nem jurídicos dado que ambos os lados os têm em boa monta, e o valor pessoal e a competência dos contendores desse assunto comprovam que há gente de bem, capaz, bem intencionada, honesta e com bons fundamentos dos dois lados da cerca: os que querem as cotas para negros, e os que a rejeitam, todos com bons argumentos.

Por isso, em texto simples, quero deixar clara minha posição como homem, cristão, cidadão, juiz, professor, "guru dos concursos" e qualquer outro adjetivo a que me proponha: as cotas para negros devem ser mantidas e aperfeiçoadas. E meu melhor argumento para isso é o aquele que me convenceu a trocar de lado: "passar um dia na cadeia". Professor de técnicas de estudo, há nove anos venho fazendo palestras gratuitas sobre como passar no vestibular para a EDUCAFRO, pré-vestibular para negros e carentes.

Mesmo sendo, por ideologia, contra um pré-vestibular "para negros", aceitei convite para aulas como voluntário naquela ONG por entender que isso seria uma contribuição que poderia ajudar, ou seja, aulas, doação de livros, incentivo. Sempre foi complicado chegar lá e dizer minha antiga opinião contra cotas para negros, mas fazia minha parte com as aulas e livros. E nessa convivência fui descobrindo que se ser pobre é um problema, ser pobre e negro é um problema maior ainda.

Meu pai foi lavrador até seus 19 anos, minha mãe operária de "chão de fábrica", fui pobre quando menino, remediado quando adolescente. Nada foi fácil, e não cheguei a juiz federal, a 350.000 livros vendidos e a fazer palestras para mais de 750.000 pessoas por um caminho curto, nem fácil. Sei o que é não ter dinheiro, nem portas, nem espaço. Mas tive heróis que me abriram a picada nesse matagal onde passei. E conheço outros heróis, negros, que chegaram longe, como Benedito Gonçalves, Ministro do STJ, Angelina Siqueira, juíza federal. Conheço vários heróis, negros, do Supremo à portaria de meu prédio.

Apenas não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro desse país. Minha filha, loura e de olhos claros, estuda há três anos num colégio onde não há um aluno negro sequer, onde há brinquedos, professores bem remunerados, aulas de tudo; sua similar negra, filha de minha empregada, e com a mesma idade, entrou na escola esse ano, escola sem professores, sem carteiras, com banheiro quebrado.


Minha filha tem psicóloga para ajudar a lidar com a separação dos pais, foi à Disney, tem aulas de Ballet. A outra, nada, tem um quintal de barro, viagens mais curtas. A filha da empregada, que ajudo quanto posso, visitou minha casa e saiu com o sonho de ter seu próprio quarto, coisa que lhe passou na cabeça quando viu o quarto de minha filha, lindo, decorado, com armário inundado de roupas de princesa.


Toda menina é uma princesa, mas há poucas das princesas negras com vestidos compatíveis, e armários, e escolas compatíveis, nesse país imenso. A princesa negra disse para sua mãe que iria orar para Deus pedindo um quarto só para ela, e eu me incomodei por lembrar que Deus ainda insiste em que usemos nossas mãos humanas para fazer Sua Justiça. Sei que Deus espera que eu, seu filho, ajude nesse assunto. E se não cresse em Deus como creio, saberia que com ou sem um ser divino nessa história, esse assunto não está bem resolvido. O assunto demanda de todos nós uma posição consistente, uma que não se prenda apenas à teorias e comece a resolver logo os fatos do cotidiano: faltam quartos e escolas boas para as princesas negras, e também para os príncipes dessa cor de pele.

Não que tenha nada contra o bem estar da minha menina: os avós e os pais dela deram (e dão) muito duro para ela ter isso. Apenas não acho justo nem honesto que lá na frente, daqui a uma década de desigualdade, ambas sejam exigidas da mesma forma. Eu direi para minha filha que a sua similar mais pobre deve ter alguma contrapartida para entrar na faculdade. Não seria igualdade nem honesto tratar as duas da mesma forma só ao completarem quinze anos, mas sim uma desmesurada e cruel maldade, para não escolher palavras mais adequadas.

Não se diga que possamos deixar isso para ser resolvido só no ensino fundamental e médio. É quase como não fazer nada e dizer que tudo se resolverá um dia, aos poucos. Já estamos com duzentos anos de espera por dias mais igualitários. Os pobres sempre foram tratados à margem. O caso é urgente: vamos enfrentar o problema no ensino fundamental, médio, cotas, universidade, distribuição de renda, tributação mais justa e assim por diante. Não podemos adiar nada, nem aguardar nem um pouco.


Foi vendo meninos e meninas negros, e negros e pobres, tentando uma chance, sofrendo, brilhando nos olhos uma esperança incômoda diante de tantas agruras, que fui mudando minha opinião. Não foram argumentos jurídicos, embora eu os conheça, foi passar não um, mas vários "dias na cadeia". Na cadeia deles, os pobres, lugar de onde vieram meus pais, de um lugar que experimentei um pouco só quando mais moço. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido.

Se alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não devem faze-lo olhando os livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a qualquer coisa, até ao nazismo. Temores apenas toldam a visão serena. Para quem é contra, com respeito, recomendo um dia "na cadeia". Um dia de palestra para quatro mil pobres, brancos e negros, onde se vê a esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio.


Se você é contra as cotas para negros, eu o respeito. Aliás, também fui contra por muito tempo. Mas peço uma reflexão nessa semana: na escola, no bairro, no restaurante, nos lugares que freqüenta, repare quantos negros existem ao seu lado, em condições de igualdade (não vale porteiro, motorista, servente ou coisa parecida). Se há poucos negros ao seu redor, me perdoe, mas você precisa "passar um dia na cadeia" antes de firmar uma posição coerente não com as teorias (elas servem pra tudo), mas com a realidade desse país. Com nossa realidade urgente. Nada me convenceu, amigos, senão a realidade, senão os meninos e meninas querendo estudar ao invés de qualquer outra coisa, querendo vencer, querendo uma chance.

Ah, sim, "os negros vão atrapalhar a universidade, baixar seu nível", conheço esse argumento e ele sempre me preocupou, confesso. Mas os cotistas já mostraram que sua média de notas é maior, e menor a média de faltas do que as de quem nunca precisou das cotas. Curiosamente, negros ricos e não cotistas faltam mais às aulas do que negros pobres que precisaram das cotas. A explicação é simples: apesar de tudo a menos por tanto tempo, e talvez por isso, eles se agarram com tanta fé e garra ao pouco que lhe dão, que suas notas são melhores do que a média de quem não teve tanta dificuldade para pavimentar seu chão. Somos todos humanos, e todos frágeis e toscos: apenas precisamos dar chance para todos.


Precisamos confirmar as cotas para negros e para os oriundos da escola pública. Temos que podemos considerar não apenas os deficientes físicos (o que todo mundo aceita), mas também os econômicos, e dar a eles uma oportunidade de igualdade, uma contrapartida para caminharem com seus co-irmãos de raça (humana) e seus concidadãos, de um país que se quer solidário, igualitário, plural e democrático. Não podemos ter tanta paciência para resolver a discriminação racial que existe na prática: vamos dar saltos ao invés de rastejar em direção a políticas afirmativas de uma nova realidade.


Se você não concorda, respeito, mas só se você passar um dia conosco "na cadeia". Vendo e sentindo o que você verá e sentirá naquele meio, ou você sairá concordando conosco, ou ao menos sem tanta convicção contra o que estamos querendo: igualdade de oportunidades, ou ao menos uma chance. Não para minha filha, ou a sua, elas não precisarão ser heroínas e nós já conseguimos para elas uma estrada. Queremos um caminho para passar quem não está tendo chance alguma, ao menos chance honesta. Daqui a alguns poucos anos, se vierem as cotas, a realidade será outra. Uma melhor. E queremos você conosco nessa história.


Não creio que esse mundo seja seguro para minha filha, que tem tudo, se ele não for ao menos um pouco mais justo para com os filhos dos outros, que talvez não tenham tido minha sorte. Talvez seus filhos tenham tudo, mas tudo não basta se os filhos dos outros não tiverem alguma coisa. Seja como for, por ideal, egoísmo (de proteger o mundo onde vão morar nossos filhos), ou por passar alguns dias por ano "na cadeia" com meninos pobres, negros, amarelos, pardos, brancos, é que aposto meus olhos azuis dizendo que precisamos das cotas, agora.

E, claro, financiar os meninos pobres, negros, pardos, amarelos e brancos, para que estudem e pelo conhecimento mudem sua história, e a do nosso país comum pois, afinal de contas, moraremos todos naquilo que estamos construindo.

Então, como diria Roberto Lyra, em uma de suas falas, "O sol nascerá para todos. Todos dirão – nós – e não – eu. E amarão ao próximo por amor próprio. Cada um repetirá: possuo o que dei. Curvemo-nos ante a aurora da verdade dita pela beleza, da justiça expressa pelo amor."

Justiça expressa pelo amor e pela experiência, não pelas teses. As cotas são justas, honestas, solidárias, necessárias. E, mais que tudo, urgentes. Ou fique a favor, ou pelo menos visite a cadeia.

*juiz federal (RJ), mestre em Direito (UGF), especialista em Políticas Públicas e Governo (EPPG/UFRJ), professor e escritor. Site do autor: (http://www.williamdouglas.com.br/).


quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Dica: "Bar Bodega, um crime de imprensa"


Comentário: Jovens negros são presos e apresentados pela polícia à mídia como assassinos de dois jovens brancos num bar frequentado pela elite paulistana. O suficiente para a imprensa fotografá-los, incriminá-los e execrá-los em praça pública. Em meio ao tom de revolta da classe média e sensacionalismo de imprensa, a colunista Barbara Gancia , da Folha, bradava em alto e bom tom: "a vontade é
é enfiar o cano do revólver na boca dessa sub-raça e mandar ver"

Os rapazes foram libertados por falta de provas.

Bar Bodega. Um crime de Imprensa. De Carlos Dornelles, agora na Record.

Resenha


Livro-reportagem sobre um crime que mobilizou a opinião pública brasileira, Bar Bodega mostra como a violência e a barbaridade podem ser amplificadas pelo arbítrio das autoridades e pela ação negligente e sensacionalista da imprensa. A partir de um levantamento minucioso (entrevistas com os envolvidos nas investigações, exames de laudos processuais), o jornalista Carlos Dorneles reconstitui as circunstâncias do assassinato de dois jovens de classe média alta num bar de São Paulo, na madrugada do dia 10 de agosto de 1996, e do escândalo jurídico que o sucedeu.

Naquela noite, um bando de homens armados entrou no bar Bodega, no bairro de Moema, iniciando um assalto que teria como desfecho os dois tiros a queima-roupa contra o dentista José Renato Tahan, de 26 anos (que entrara desavisadamente na choperia), e a morte da estudante de odontologia Adriana Ciola, de 23 anos (que estava no Bodega desde o início do assalto e foi alvejada de maneira gratuita no momento em que os assassinos fugiam).

O fato de o crime ter ocorrido num bar freqüentado pela elite paulistana, de propriedade de atores conhecidos (Luis Gustavo e os irmãos Tato e Cássio Gabus Mendes), logo levou o caso para as primeiras páginas dos jornais. As manchetes falavam em pânico coletivo e epidemia de violência; os editoriais contestavam os defensores dos direitos humanos, descrevendo seus argumentos como catequese ideológica.

Paralelamente, os familiares de Adriana Ciola lideraram a formação do movimento Reage São Paulo, com apoio da Fiesp, da Federação do Comércio e personalidades como Hebe Camargo, o rabino Henry Sobel e o presidente da Força Sindical, Luís Antonio Medeiros, promovendo passeatas, manifestações no Ibirapuera e protestos em frente ao Palácio dos Bandeirantes.

Nesse clima, com a polícia pressionada pela opinião pública, começam as primeiras prisões de suspeitos, imediatamente identificados como culpados por boa parte da imprensa: enquanto um jornal da capital anuncia "Presos assassinos do Bar Bodega", uma colunista de outro grande diário escreve que os assaltantes são animais que matam por esporte, sentenciando: "São veneno sem antídoto, nenhum presídio recuperaria répteis dessa natureza. A vontade de qualquer pessoa normal é enfiar o cano do revólver na boca dessa sub-raça e mandar ver".

Dentre os nove detidos estava Cléverson, menor infrator envolvido com drogas, acusado de assassinato e com passagem pela Febem. E é por meio da trajetória desse jovem delinqüente, atormentado e em busca de reconciliação com a vida familiar, que Carlos Dorneles consegue dar dramaticidade ao livro, sem prejuízo do rigor documental.

Repórter da TV Globo desde 1983, o jornalista gaúcho acompanha nuances da biografia de Cléverson e mostra não apenas como a exclusão pode levar à criminalidade – mas como a condição de marginal pode levar à acusação por crimes não cometidos e à supressão dos direitos jurídicos mais elementares. Mostra, ainda, como o caso Bodega arrebatou as vidas de outros rapazes da periferia paulistana, jovens trabalhadores inocentes que, em meio a acusações e ao terror policial, tornam-se também delatores, alimentando a violência em espiral.

O clímax do episódio ocorre quando, alguns meses depois da detenção dos suspeitos e de sua execração pública, a verdade começa a vir à tona: sete dos nove presos são libertados por insuficiência de provas, constatando-se que confissões haviam sido obtidas sob tortura e com a conivência de uma população sedenta de vingança. Esta verdade, porém, seria reconhecida de maneira discreta pela imprensa, que omitiu seu próprio papel na legitimação do disparate jurídico.

Quando finalmente são identificados e processados os autores dos assassinatos, verifica-se que "nas matérias telegráficas que a imprensa publicou, nenhum comentário sobre o fato de que os acusados anteriores eram negros ou mulatos, e não brancos como os verdadeiros assaltantes".


quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Verissimo compara avanços na luta contra o racismo no Brasil e nos EUA; leia artigo

23/12/2008


da Folha Online

As primárias do Partido Democrata ainda não estavam decididas quando Luís Fernando Verissimo escreveu o artigo "A Questão", usando a candidatura de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos como ponto de partida para comparar os avanços de Brasil e EUA na luta contra o racismo.

Divulgação
Verissimo analisa temas atuais em crônicas breves e contundentes
Verissimo analisa temas atuais em crônicas breves e contundentes

Verissimo afirma no artigo que, ao contrário do que acontece no Brasil, a guerra por direitos iguais nunca foi "disfarçada ou desconversada" nos EUA. "A miscigenação entre nós não tem significado integração por vias naturais, e sim apenas outra forma de despolitizar e adiar a questão", diz.

O artigo, que pode ser lido na íntegra abaixo, faz parte da coleção de crônicas de Luís Fernando Verissimo selecionadas para o livro "O Mundo É Bárbaro - E o que Nós Temos a Ver Com Isso", da editora Objetiva, disponível na Livraria da Folha.

Em textos breves, Verissimo exibe olhar crítico sobre temas como racismo, política, economia, a ascensão chinesa, a guerra contra o terror, o passado e o futuro do Brasil e da América Latina.

Leia abaixo o artigo do autor sobre como os EUA e o Brasil lidam com o racismo.

*

A Questão

É difícil imaginar um negro como Barack Obama sendo eleito presidente - do Brasil. Dos Estados Unidos, talvez. Lá um negro já chegou a secretário de Estado, e foi substituído no cargo por uma negra. Desculpe: afro-descendente. Pelo menos não escrevi "um negão como Barack Obama", ou, para mostrar que não sou racista, "um negrinho".

A diferença entre um país e outro é essa. Lá o racismo é uma questão nacional. Aqui uma ficção de integração dilui a questão racial. E se a questão não existe, se ninguém é racista, por que nos preocuparmos com denominações corretas ou incorretas? Só quando a ficção é desafiada, como no caso das cotas universitárias, é que aparece o apartheid que não se reconhece.

Um dos marcos das relações raciais nos Estados Unidos não foi a primeira vez em que um negro interpretou um herói no cinema, provavelmente o Sidney Poitier. Nem a primeira vez em que um negro e uma branca, ou vice-versa, namoraram na tela. Foi a primeira vez em que um negro foi o vilão do filme. Colin Powell e Condoleezza Rice, que chegaram a secretários de Estado, e o próprio Obama, devem suas carreiras a esse vilão histórico, que significou o fim dos estereótipos e a aceitação, sem melindres, de que negro também pode ser ruim, igual a branco. Se a cor da pele não determinava mais que ele fosse sempre retratado como um inferior virtuoso ou uma vítima, também não o descriminava de outras maneiras. Powell e Rice levaram essa reversão de esteréotipos ainda mais longe. Os dois são do partido republicano. Como Clarence Thomas, único juiz negro da Suprema Corte americana que também é um dos seus membros mais conservadores.

Claro que a cor da pele vai ser um fato na eleição ou não do Obama, como o fato de ser mulher vai ajudar ou não a Hillary. Por isso mesmo, sua possível eleição seria uma prova dessa transformação da questão racial no país, uma vitória numa guerra por direitos iguais que lá - ao contrário do Brasil - nunca foi disfarçada, ou desconversada. Aqui a miscigenação significou que alguns quase-negros, ou só um pouco afro-descendentes, chegassem ao poder, mas miscigenação entre nós não tem significado integração por vias naturais, e sim apenas outra forma de despolitizar e adiar a questão.

Obama será o candidato dos democratas? Estão comparando sua campanha com a de Bob Kennedy, pelo entusiasmo que provoca numa faixa de idade que não se interessava tanto por política desde a mobilização contra a guerra do Vietnã. Li que 40 por cento dos americanos que podem votar este ano nunca conheceram outro presidente que não fosse um Bush ou o Clinton, e Hillary seria outro Clinton nessa dança de dinastias. Assim, Obama seria uma novidade em mais do que o sentido racial. Como se precisassem outros.

Na comparação com Bob Kennedy, claro, ninguém ainda lembrou (pelo menos não sem bater na madeira) que aquela novidade terminou numa poça de sangue, no chão de uma cozinha de hotel. Batamos todos na madeira.

*

"O Mundo É Bárbaro - E o que Nós Temos a Ver Com Isso"
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Objetiva
Páginas: 160
Quanto: R$ 29,90
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou no site da Livraria da Folha

Leia mais

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Protógenes comeu jornalistas com farinha!


Comentário: Ao contrário do Roda Viva de Gilmar Mendes, só com amigos, desta vez chamaram críticos do entrevistado.

Foram três momentos interessantes. Fernando Rodrigues, da Folha, pergunta porque os agentes secretos da ABIN esconderam suas identidades. Protógenes de forma didática responde que estranho seria que agentes secretos revelassem suas identidades.


Fernando poderia dormir sem essa.

Segundo: Noblat se confunde e chama Gilmar Mendes de Gilmar Dantas em rede nacional. O inconsciente é fogo.

Houve perguntas sobre porque Dantas é chamado de bandido por Protógenes. O delegado calmamente responde: porque já foi condenado, ora.

Com imprensa assim, fica fácil para o delegado.


PROTÓGENES QUEIROZ
Delegado da Polícia Federal


A Operação Satiagraha teve início há 3 anos, como desdobramento do caso do mensalão. O trabalho da CPI dos Correios levou a Polícia Federal a iniciar uma investigação, que acabou apresentando indícios dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal, formação de quadrilha, gestão fraudulenta, alem de uso indevido de informação privilegiada.

A Operação Satigraha foi realizada dia 8 de julho nas cidades de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador e contou com a participação de 300 policiais federais, que executaram 24 mandados de prisão e 56 mandados de busca e apreensão.

O juiz do caso, Fausto de Sanctis, autorizou a prisão do banqueiro Daniel Dantas, duas vezes e, em ambas, o dono do Banco Opportunity recebeu um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal poucas horas depois.

Atualmente, as investigações estão sob a responsabilidade do delegado Ricardo Saadi. Ele assumiu o posto depois que Protógenes Queiroz, responsável pela investigação e pela Operação, deixou o caso 8 dias após as prisões. Ele é alvo de um processo administrativo que apura desvio de conduta e quebra de sigilo funcional.

Além da Satiagraha, Protógenes Queiroz foi responsável por outras grandes operações da PF, como as que resultaram nas prisões do ex-prefeito Paulo Maluf e do contrabandista chinês Law Kin Chong e investigou também crimes financeiros realizados com o uso de contas CC5 e a organização criminosa comandada pelo ex-deputado Hildebrando Pascoal.


Entrevistadores: Ricardo Noblat, colunista do jornal O Globo e titular do Blog do Noblat; Renato Lombardi, comentarista do Jornal da Cultura; Fernando Rodrigues, colunista e repórter do jornal Folha de S. Paulo em Brasília e Fausto Macedo, repórter de política do jornal O Estado de S. Paulo.
Twitters no estúdio: Sérgio Amadeu, sociólogo, (http://twitter.com/samadeu); Paula Signorini, bióloga, (http://twitter.com/paulabio) e Murilo Machado, estudante de jornalismo (http://twitter.com/murilomachado).
Fotógrafo convidado: Fernando Mafra (http://www.flickr.com/photos/f_mafra).


Apresentação: Lillian Witte Fibe

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

NOBLAT: quem grampeou foi a Veja!


Comentário: há informações de que as redações estão cada vez mais convictas da irresponsabilidade da Veja na montagem do tal grampo.

Um jornalista que é até pouco crítico da revista disparou hoje cedo:

DO NOBLAT


"A VEJA diz ter recebido de um agente da ABIN a transcrição da conversa entre Mendes e Torres. Os dois leram a transcrição e disseram que de fato haviam travado aquela conversa - e naqueles termos. Não é razoável imaginar que o presidente do Supremo e o senador tenham se juntado à VEJA para inventar uma história que quase provocou uma crise institucional.


Se a ABIN não grampeou Mendes ou Torres, alguém pode ter grampeado.)

OU SEJA, SE NÃO FOI A ABIN ENTÃO FOI A REVISTA VEJA


Isso dentro do portal Globo

Como votaram os senadores na sessão do Senado que aprovou a PEC dos Vereadores

O GLOBO

BRASÍLIA - Abaixo, como votaram os senadores na sessão do Senado que aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que recria 7.343 dos 8 mil cargos de vereadores cortados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). (Leia mais: Mesa da Câmara se nega a promulgar PEC dos vereadores e exige nova análise dos deputados)

No primeiro turno o placar a favor registrou 54 votos a favor, cinco contrários e uma abstenção. No segundo turno, o número de votos a favor subiu para 58.

Votaram contra

No primeiro turno foram Álvaro Dias (PSDB-PR), João Pedro (PT-AM), Kátia Abreu (DEM-TO), Raimundo Colombo (DEM-SC) e Tião Viana (PT-AC). No segundo turno Álvaro Dias não votou e Cristovam Buarque (PDT-DF) completou os cinco votos contrários.

Votaram a favor

Ada Mello (PTB-AL)

Adelmir Santana (DEM-DF)

Aloizio Mercadante (PT-SP)

Antônio Carlos Junior (DEM-BA)

Antônio Carlos Valadares (PSB-SE)

Arthur Virgílio (PSDB-AM)

Augusto Botelho (PR-RR)

César Borges (PR-BA)

Cícero Lucena (PSDB-PB)

Delcídio Amaral (PT-MS)

Demóstenes Torres (DEM-GO)

Eduardo Azeredo (PSDB-MG)

Eduardo Suplicy(PT-SP)

Expedito Júnior (PR-RO)

Fátima Cleide (PT-RO)

Flávia Arns (PT-PR)

Flexa Ribeiro (PSDB-PA)

Francisco Dornelles (PP-RJ)

Gerson Camata (PMDB-ES)

Gilberto Goellner (DEM-MT)

Gilvam Borges (PMDB-AP)

Gim Argello (PTB-DF)

Heráclito Fortes (DEM-PI)

Ideli Salvatti (PT-SC)

Inácio Arruda (PCdoB-CE)

Jayme Campos (DEM-MT)

Jefferson Praia (PDT-AM)

João Vicente Claudino (PTB-PI)

João Ribeiro (PR-TO)

José Agripino (DEM-RN)

José Nery (PSOL-PA)

Lúcia Vânia (PSDB-GO)

Leomar Quintanilha (PMDB-TO)

Magno Malta (PR-ES)

Mão Santa (PMDB-PI)

Marcelo Crivella (PRB-RJ)

Marco Maciel (DEM-PE)

Marconi Perillo (PSDB-GO)

Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR)

Neuto do Conto (PMDB-SC)

Osmar Dias (PDT-PR)

Papaléo Paes (PSDB-AP)

Patrícia Saboya (PDT-CE)

Paulo Duque (PMDB-RJ)

Paulo Paim (PT-RS)

Pedro Simon (PMDB-RS)

Renato Casagrande (PSB-ES)

Renan Calheiros (PMDB-AL)

Romero Jucá (PMDB-RR)

Rosalba Ciarlini (DEM-RN)

Roseana Sarney (PMDB-MA)

Sérgio Zambiasi (PTB-RS)

Serys Slhessarenko (PT-MS)

Tasso Jereissati (PSDB-CE)

Valdir Raupp (PMDB-RO)

Valter Pereira (PMDB-MS)

Virgílio de CArvalho (PSC-SE)

Wellington Salgado (PMDB-MG)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Grande Ato Público Pacífico Contra a Violência no Rio - 13 de Dezembro


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Grande Ato Público Pacífico contra a Violência - 13 de dezembro - Praia de Copacabana

Para encerrar 2008, a ONG Rio de Paz promove mais um grande ato público na Praia de Copacabana (Princesa Isabel), neste sábado 13/12, a partir das 6h. Mais de 200 ativistas irão espalhar 16 mil cocos verdes pelas areias de Copacabana, representando as vítimas de mortes violentas durante os dois últimos anos.

A estimativa é de 16 mil homicídios(*), considerando homicídios dolosos, latrocínios, autos de resistência e policiais mortos. Sem contar com as 9 mil pessoas desaparecidas sem esclarecimentos. Desta vez, a dramatização do cenário será através dos cocos. O trabalho dos voluntários nesta ação começará a meia-noite de sexta-feira.

O manifesto começa às 6h e será encerrado às 12h30 de Sábado, com um minuto de silêncio de todos os envolvidos, inclusive familiares das vítimas.

Agenda

06h - junto com nascer do sol, os 16 mil cocos estarão espalhados na areia da praia.

09h - será estendida uma faixa entre os cocos com a palavra VERGONHA nos idiomas português, inglês, francês e espanhol. Abaixo os números dos homicídios e desaparecidos nos últimos dois anos no Rio de Janeiro.

11h - três crianças ficarão por cinco minutos entre cocos para representar o descaso das autoridades. Uma delas com as mãos na boca, outra com as mãos nos olhos e a terceira com as mãos nos ouvidos.

12h - os cocos serão empilhados e ficarão ao lado de uma grande cruz preta. O encerramento será com todos sentados na areia da praia em um minuto de silêncio.

(*) dados do Instituto de Segurança Pública.

ATENÇÃO

 

É muito importante que os voluntários levem suas camisetas de futebol (Flamengo, Fluminense, Botafogo ou Vasco), pois queremos mostrar a união entre diferentes torcidas no combate à violência do Rio de Janeiro.

 

Não aceitamos – em hipótese alguma – o argumento derrotista de que não há o que fazer para evitar que a inacreditável quantidade de homicídios de 2008 volte a ocorrer nos próximos anos.

 

 

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Desejamos levar os cidadãos a considerarem os seguintes fatos:

 

I. Não devemos esperar a tragédia alcançar a nossa família para começar a luta pela pacificação do país.

 

II. O jogo político-eleitoral tem reduzido a liberdade de ação dos nossos governantes. Muitos sabem o que devem fazer, mas não podem ou têm outros compromissos como prioridade.

 

III. Sem participação e cobrança da população não haverá mudança significativa no grave quadro que pesa no cotidiano de todos. Temos que acompanhar de perto as ações do governo, apoiá-lo em iniciativas que visem à defesa da vida e o cumprimento da Constituição federal, mas sem tolerar o engano, e as medidas superficiais ou de desrespeito a direitos de parte da população.

 

IV. O protesto nas ruas é um meio democrático e eficaz de transformação. Nações desenvolvidas sabem disso e o praticam regularmente. O Greenpeace, por exemplo, surgiu de um protesto contra testes nucleares dos EUA no Alasca, em 1971. Os testes nucleares no local foram suspensos, e a região foi transformada em um santuário do meio ambiente.

 

V. A organização da sociedade para a participação pacífica dá-se de modo simples. Igrejas, associações de moradores, grupos de estudantes, empresários, donas de casa e até torcidas de futebol podem ser organizar para a batalha em favor da vida.


VI. Estamos certos de que este estado de coisas deve-se ao fato da consciência da população estar adormecida, individualizada, desesperançada. Se os cidadãos se levantarem a uma só voz será possível prevenir tanta violência e injustiça.

 

VII. Povos do passado, unidos, venceram conflitos mais graves do que os nossos. O país agora, mais do que nunca, carece da mobilização de todos nós, homens e mulheres que reconhecem o valor incalculável da vida humana.

 

 

Faixa ARTIGO V e-mail.jpg

 

 

Faça parte da Rede Social Rio de Paz

Como funciona a Rede?

É muito simples. NING é uma plataforma online que proporciona ao usuário criar a sua própria rede social. Sendo assim, o Rio de Paz criou a sua também, facilitando o canal de conhecimento entre os voluntários. Lá todos poderão debater criando fóruns de discussão e interagir de forma rápida com todos que querem contribuir para a redução da violência e na defesa dos direitos humanos no Brasil.

Para ser membro clique aqui

 

Para que o mal triunfe, é necessário apenas que os homens de bem permaneçam inativos. — Edmund Burke

 

A luta contra a criminalidade organizada é muito difícil, porque a criminalidade é organizada, mas nós não. — A. Amaurri

 

Não é a violência de poucos que me assusta, mas a omissão de muitos. — Martin Luther King

 

Equipe do Rio de Paz. Um Movimento Pela Vida.


Ana Maria Praga?



No último dia 24, revoltada com a traição de Marcelo, a apresentadora defendeu a amiga Susana no ar: "Esse cara é um vagabundo, mau-caráter. Se você desaparecesse da face da Terra, ia fazer um favor para todo mundo".

A vítima acabou de cumprir o desejo da apresentadora.


A praga da Ana Maria



Credo em Cruz. Sai pra lá bicho loiro. Ou seria o louro bicho?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

NY Times sobre Cuba: uma aula de jornalismo


Comentário: Uma bela matéria de um jornal que insiste em estar acima das disputas rasteiras. Um exemplo de jornalismo. Põe vantagens e desvantagens do sistema cubano. Mostra todos os erros americanos em relação à Ilha, mesmo sendo um jornal americano, pertencente a uma das maiores empresas capitalistas da mídia no mundo.

Não é a toa que é o melhor do mundo. No Brasil, não se lê uma matéria que não seja parcial, apaixonada e muitas vezes mentirosa sobre Cuba. O que o NYTimes pratica pode-se, sem medo, chamar de jornalismo.

Obs. O Washington Post foi quem revelou as arbitrariedades de Guantânamo. Também é outro gigante do jornalismo.

Pobre jornalismo brasileiro.


ULTIMO SEGUNDO

NY Times

08/12 - 12:20 - The New York Times


Por ROGER COHEN

Em meu primeiro dia em Havana, perambulei pelo Malecon, o passeio urbano à beira-bar mais movimentado do planeta. Um vento norte rugia enquanto ondas quebravam violentamente sobre o dique de pedras construído em 1901, durante o curto período de domínio americano.

 

Eu estava praticamente sozinho naquela manhã de domingo na capital cubana de 2,2 milhões de habitantes. Uns dois ou três carros passavam a cada minuto, geralmente os lindos "rabo de peixe" dos anos 50, velhos e extravagantes Studebakers e Chevrolets. Eu olhava o oceano ao longe buscando por um barco, em vão.


Não era sempre assim a apenas 90 milhas dali, na costa da Flórida. Em 1859, o advogado americano Richard Henry Dana Jr., autor do clássico "To Cuba and Back", velejou até Havana. Mas tarde ele escreveu: "Que mundo de navegação! Os mastros formam um cinturão de floresta densa margeando a cidade, todas as embarcações com a proa voltada para a rua, como cavalos em seus estábulos".


No século seguinte, Cuba se tornaria o parque de diversões de inverno para os americanos. A máfia adorava a ilha, a maior do Caribe, assim como os empresários americanos que controlavam a indústria açucareira e muito mais.


Entretanto, no dia 1 de janeiro de 1959, Fidel Castro derrubou o ditador Fulgencio Batista. Era o fim da era da farra e do comércio em Cuba para os americanos. Centenas de milhares de cubanos fugiram do domínio comunista para Miami, fazendo desta a segunda principal cidade Cubana.


Fidel liderou a guerrilha contra Fulgêncio Batista / AP


O vazio que via diante dos meus olhos capturou a sombra confinadora da cortina tropical de Fidel. Ao longo de meus dias seguintes na ilha, me dei conta que os cubanos que se empoleiravam no muro à beira-mar raramente olhavam para o mundo exterior. Quando perguntei a Yoani Sanchez, uma blogueira dissidente, sobre minha constatação, ele me respondeu: "Vivemos de costas para o mar porque ele não nos conecta, ele nos encarcera. Se fosse permitido comprar barcos as pessoas iriam para a Flórida. Como escreveu um de nossos poetas: 'Fomos deixados com a circunstância infeliz de estar cercado de água por todos os lados'".


Não é natural conceber que o mar e o horizonte longínquo imponham limites. Aos 82 anos, o enfermo Fidel ainda mantém os cubanos sob rédeas curtas, mesmo tendo formalmente passado a presidência em 2006 para Raul Castro, seu irmão mais novo.


EUA x Cuba

E o confronto entre os EUA e Cuba se encontra em um tenso estado de paralisia infrutífera, o qual Barack Obama prometeu superar. As relações diplomáticas entre os dois países têm sido severas desde 1961: um embargo comercial americano vem vigorando por quase todo este período, mesmo que e a Guerra Fria já tenha terminado quase duas décadas atrás.


Mudar isso não vai ser fácil. Ainda no Malecon, me encontrei com Josefina Vidal, diretora do departamento de América do Norte do Ministério de Relações Exteriores de Cuba. Sua raiva me pareceu tão vivaz quanto seu elegante vestido em tom violeta.


"Os Estados Unidos querem punir Cuba com seu bloqueio", disse-me ela. "Eles não nos aceitam da maneira que somos. Eles não conseguem perdoar nossa independência. Eles não conseguem nos deixar escolher nosso próprio modelo. E agora vem Obama dizendo que irá suspender algumas restrições, mas, para que possa seguir adiante, é preciso que Cuba mostre que está fazendo mudanças democráticas.


Bem, nós não aceitamos que Cuba tenha de mudar para merecer manter relações normais com os Estados Unidos".


Durante a campanha presidencial, Obama anunciou uma "nova estratégia", centrada em duas mudanças imediatas: a suspensão de todas as restrições de viagens para visitas familiares (limitadas por Bush a uma a cada três anos) e a liberação de remessas familiares (atualmente limitadas a US$ 300 por trimestre por domicilio recebedor).


Obama também falou de "diplomacia direta", dizendo que ele próprio estaria preparado para encabeçar este processo "em um momento e local de minha escolha", contanto que houvesse avanço para os interesses americanos e para a "causa da liberdade para o povo cubano".


Ele disse que sua mensagem para Fidel e Raul seria: "Se vocês derem passos importantes em direção à democracia, começando com a libertação de todos os presos políticos, daremos passos para começar normalizar as relações entre os dois países".


Cuba se encontra em um importante momento de mudança de gerações: daquela formada por Fidel para aquela que mal o conhecerá. Aproveitar esta oportunidade vai demandar um pouco de humildade por parte dos americanos.


As raízes do conflito remetem à intervenção militar dos EUA, ocorrida em 1898, que deixou os cubanos com a leve impressão de que eles tinham sido destituídos da independência conquistada da Espanha a duras penas. O que se seguiu foram quatro anos de controle direto dos EUA e o surgimento de Cuba como uma república quase independente em 1902 – "quase", pois através do dispositivo legal denominado Platt Amendement os Estados Unidos mantiveram o direito de intervir nos negócios da ilha.


Cuba também foi levada a ceder eternamente a Baía de Guantánamo, uma área de 45 milhas quadradas localizada no sul da ilha.


Esta é a história que permitiu a Fidel alegar que sua revolução, na verdade, foi uma segunda guerra de independência. Esta é a história que causa reviravoltas em cabeças racionais de Washington e Havana.


Embargo e racionamento

A Rua Lealtad parte do bairro de Malecon e chega a um distrito densamente habitado chamado Centro Habana. Parei em um armazém que vende alimentos racionados - frango, ovos e peixe - que se encontrava completamente vazio. Antonio Rodriguez, o amável cubano de 50 anos que cuida do armazém, me explicou o funcionamento do racionamento.


Todo mês, cada cubano tem o direito de adquirir 10 ovos (os cinco primeiros pelo valor de 0,15 pesos cada e os outros cinco por 0,90 pesos cada); meio quilo de frango por 0,70 pesos; meio quilo de peixe com cabeça por 0,35 pesos; e 250 gramas de um substituto de picadinho de carne por 0,17 pesos. Com o dólar cotado a 27 pesos, o lote todo não saia por mais de 25 centavos de dólar.


Isto pode parecer um bom negócio, mas tem ressalvas. O salário mensal médio é de cerca de US$ 20. Perguntei a Rodriguez quando o frango e os ovos iriam chegar. Sei lá, disse ele.


Outro homem se aproximou. "Isso tudo é por causa do bloqueio dos Estados Unidos", disse Luiz Jorrin, apontando o dedo para mim e usando o termo exagerado que os cubanos preferem para definir o embargo. "Olhe para a crise financeira de seu país! Talvez vocês consigam superá-la com o tempo. Bem, nós também vamos superar isso com o tempo. Não acredito em capitalismo, é uma coisa destrutiva! Veja o que ele causou na África e na América Latina!".


Carros antigos e cartazes da revolução fazem parte da paisagem cubana / AP


Aquilo passava da conta para Javier Aguirre, o camarada magro que ajudava Rodriguez. "Estamos naufragados e depois de três furacões afundamos ainda mais", disse ele. "Simplesmente não acredito no sistema. Dê-me a Suíça! De todos os cubanos que partiram para os Estados Unidos, quantos querem voltar?".


A pergunta levou a conversa ao silêncio imediato. O próprio Aguirre já tinha tentado escapar e por duas vezes fora pego: uma pelos cubanos e outra pela Guarda Costeira dos EUA. Atualmente a maioria dos cubanos que alcança o solo americano é autorizada a ficar, enquanto grande parte daqueles interceptados no mar são repatriados – prática conhecida como "pé seco, pé molhado". Vai saber...


Aquela conversa que tive em frente à pequena loja me pareceu bastante típica: o diálogo franco e aberto, a menção ao embargo americano como a fonte da miséria da ilha e a referência ao colapso da economia global. É preciso dizer que Cuba é um dos pouquíssimos lugares do mundo que praticamente não foi afetado pelo derretimento do índice Dow Jones.


Bagunça na economia

Entretanto, a economia centralizada cubana é uma bagunça. O país tem duas moedas, uma para o comunismo e outra para um capitalismo limitado, dominado pelo Estado. Os pesos recebidos através do salário não podem comprar nada além de itens racionados ou indesejáveis. Por outro lado, os pesos conversíveis atrelados ao dólar, conhecidos por "CUCs", podem ser usados para adquirir produtos estrangeiros. 


Passe em frente a uma loja mal iluminada, onde a moeda aceita é o peso, e você provavelmente verá uma roda de bicicleta, um sutiã amarelado ou um jogo de colheres de plástico. Passe em frente a uma loja onde a moeda é o peso convertido e você verá celulares, garrafas de uísque Jameson e de cerveja Heineken dispostas em um ambiente claro e refrigerado. O resultado disso é que muitos cubanos passam a vida toda se virando para conseguir ingressar na economia do peso convertido, que depende basicamente de ter acesso a visitantes estrangeiros.


O governo cubano me recebeu com cordialidade. Fui escoltado a algumas reuniões oficiais, por outro lado fui deixado circular sem um vigia (pelo que eu saiba) para fazer o que quisesse. Um de meus compromissos oficiais foi com Elena Alvarez, que tinha 15 anos quando a revolução de Fidel se instalou e hoje, aos 65 anos, ocupa um cargo de alto escalão no Ministério da Economia.


A seguir, relato o que ela quis me fazer entender. A Cuba da época da revolução era "uma das sociedades mais injustas, desiguais e exploradas do planeta". O índice de analfabetismo beirava os 40%, um quarto das terras de maior valor estava nas mãos dos EUA e uma burguesia corrupta mandava em tudo e todos.


Alvarez me forneceu alguns dados. Na época da revolução, havia 6 mil médicos em Cuba; hoje eles são quase 80 mil para uma população de 11,3 milhões - uma das taxas per capita mais elevadas do mundo. O embargo dos EUA custou a Cuba cerca de US$ 200 bilhões em termos reais.


Saúde e educação

Apesar da escassez, em grande parte atribuída ao embargo, trata-se de uma sociedade que quer proteger a todos. O sistema de racionamento garante que todo cidadão tenha as necessidades básicas. Todo mundo recebe alimentação a baixo custo no trabalho. Saúde e educação gratuitas representando um salário mensal de US$ 20 não é a maneira correta de ver a qualidade de vida cubana.


O sistema produziu resultados. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a expectativa de vida para homens e mulheres em Cuba é de 76 e 80 anos, respectivamente, nível similar ao dos EUA. Os dados comparativos no Haiti são de 59 e 63 anos, e na República Dominicana são de 66 e 74 anos. O analfabetismo foi eliminado. Estatísticas da ONU – Organização das Nações Unidas - demonstram que 93,7% das crianças cubanas completam o ciclo secundário; muito acima dos índices americanos ou de qualquer outro país caribenho.


Isto levanta uma questão: por que educar tão bem as pessoas e mais tarde negar a elas o acesso à internet, viagens e a oportunidade de utilizar suas habilidades? Porque dar a elas uma excelente educação e lhes negar a vida? Porque não oferecer, pelo menos, o modelo chinês ou vietnamita, com uma economia de mercado sob o controle de um único partido?

Alvarez respondeu que "o mercado tinha algum espaço". Ela insistiu: "Não somos fundamentalistas".


Será que Fidel realmente empreendeu a guerra de guerrilhas nas montanhas de Sierra Maestra para que inúmeros cubanos talentosos acabassem desocupados, tramando maneiras de escapar?


Alvarez admitiu que os desafios eram enormes. Ela destacou a joint-venture de exploração de petróleo na costa norte e a crescente "economia do conhecimento", que já produziu vacinas e medicamentos patenteados vendidos no mundo todo. Cuba iria agora exportar produtos, como os 30 mil profissionais da área médica enviados para a Venezuela em um acordo de permuta inovador - que traz 90 mil barris de petróleo por dia.


"Somos um exemplo para os outros", disse ela, "um exemplo para todos aqueles que buscam uma alternativa ao capitalismo".


Eu certamente percebi algo difícil de quantificar, um tipo de consciência socialista, especialmente entre os médicos. Conversei com o Dr. Juan Carrizo, reitor da Escola Latino Americana de Medicina, fundada uma década atrás com o intuito de educar médicos sem condições financeiras suficientes para cursar uma universidade em outros países das Américas. Ele me falou sobre o direito universal à saúde como a nova bandeira humanitária da revolução cubana: fora com as guerrilhas angolanas, dentro com a brigada médica. Dentre os estudantes há mais de 100 cidadãos norte-americanos.


Repressão na ilha

Os dissidentes de Cuba são marginalizados. A imprensa é amordaçada. O veículo impresso do regime, o jornal Granma, é um estudo em oficialês do Estado totalitário, ao estilo George Orwell. A televisão estatal é uma máquina grandiloquente de panfletagem política.


O jornal "Granma" é o veículo de imprensa oficial do Estado / AFP

"Há uma repressão muito inteligente aqui, uma repressão científica", contou-me Yoani Sanchez, dissidente cujo blog é atualmente traduzido em 12 idiomas. "Eles nos mataram enquanto cidadãos, para que não precisem nos matar fisicamente. A polícia está dentro de nosso cérebro, nos censurando antes mesmo de proferirmos uma idéia crítica".


Aos 33 anos, Sanchez representa algo novo: a dissidência digital. As autoridades parecem não ter certeza de como lidar com isso. Sanchez, uma mulher pequena e vivaz, iniciou seu blog em 2006. Hoje suas dissecações mordazes dos infortúnios da vida cubana têm um vasto séquito de seguidores internacionais – em tais proporções que "os serviços de inteligência sabem que se tocarem em mim haverá uma explosão online".


Mesmo assim, eles a assediam. Quando ganhou o prestigiado prêmio espanhol Ortega Y Gasset por jornalismo digital em abril, a blogueira foi impedida de receber o prêmio pessoalmente.


Perguntei se ela era otimista em relação a mudanças. Ela disse ser uma pessimista em curto prazo, "Porque a apatia entrou em nossa corrente sanguínea e um monte de gente está simplesmente esperando a morte de um bando de líderes de mais de 70 anos". Mas, ela também afirmou ser otimista em longo prazo, "Pois somos um povo criativo e capaz - sem quaisquer conflitos étnicos, religiosos ou de outros tipos - que desenvolveu uma alergia ao que temos: um sistema totalitário".


Sanchez me fitou – seus olhos castanhos refletindo intensidade e inteligência com um toque de humor em sua superfície. "Acho que vai haver alívio quando Fidel morrer", disse ela. "Iremos respirar aliviados. O peso místico e simbólico de sua presença é muito forte, para seus oponentes e até para seus partidários. É difícil consertar seus erros enquanto ele ainda esta presente".


Quando voltei para a Rua Lealtad, deparei-me com um alvoroço total: tinha chegado o frango! Rodriguez estava desembalando cochas de frango em pedaços. Peito de frango só é vendido no mercado de peso convertido. Ele segurava a caixa com um grande sorriso estampado no rosto. Na embalagem estava escrito: "Made in USA".


Época de mudanças

Desde o ano 2000, quando o congresso americano se curvou diante do lobby dos fazendeiros, vender produtos agrícolas e alimentícios para Cuba se tornou legal. O que significa qualquer coisa, desde coxas de frango até postes telefônicos. Na verdade, os Estados Unidos são atualmente os maiores exportadores de alimentos para Cuba, com ganhos que superam os US$ 600 milhões anuais. O país está entre os cinco maiores parceiros comerciais de Cuba (os outros são a Venezuela, a China, a Espanha e o Canadá).


Tanta coisa em função do embargo: ele é tão arbitrário quanto a política do "pé seco, pé molhado" em relação aos cubanos em fuga. Enquanto a América tirou centenas de milhões de dólares de Cuba, ela mandou de volta 2.086 refugiados por via marítima no ano fiscal de 2008. Princípios não têm nada a ver com a atual política externa em relação a Cuba. Tudo não passa de uma bagunça incoerente.


Obama deveria propor a abertura total das relações diplomáticas com Cuba imediatamente. Isto poria pressão no país e, caso a oferta fosse aceita, permitiria que negociações conduzidas pessoalmente começassem no alto escalão. Nestas conversações, Obama não deveria ficar tocando na mesma tecla dos princípios democráticos, pelo menos não imediatamente, mas deveria insistir na libertação de todos os presos políticos como primeiro passo em direção à suspensão do embargo.

 

Tony Lake, conselheiro sênior em políticas estrangeiras da campanha de Obama, disse: "Com a nova maioria democrática no Congresso, e alguns movimentos cubanos claros em relação aos direitos humanos, seria possível alterar a Helms-Burton", a legislação que determinou o formato da política externa americana em relação a Cuba desde 1996.


Depois disso, a bola iria continuar rolando com uma força cinética que o passar das gerações deveriam sustentar.


(Roger Cohen, colunista dos jornais The International Herald Tribune e The New York Times, é o autor de "Hearts Grown Brutal: Sagas of Sarajevo")

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Da série: notícia ruim é sempre a melhor!



Comentário: O extraordinário PIB brasileiro para o terceiro semestre gerou esperanças de que a crise não bata tão forte no país. Mas qual foi a ênfase dos jornais?

Lógico. Apostar no pior. O Globo, por exemplo, não mancheteia o PIB, mas sim o freio no melhor momento. E entre um índice de 0.4 e 1.0 % de retração, adivinha qual ele escolhe para o título?

Mesmo que a ênfase da matéria seja o índice menos pior. Observe.


Economia pode recuar até 1% no 4º trimestre


RIO - O anúncio nesta terça-feira de que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil avançou 1,8% no terceiro trimestre, frente ao período imediatamente anterior, e 6,8%, na comparação anual, mais do que o esperado, está obrigando os analistas a refazerem suas previsões de variação negativa para o quarto trimestre. A maioria acredita agora que a economia ainda vai crescer nos últimos três meses do ano, mas não há consenso sobre os números, devido às incertezas sobre o tamanho do impacto da crise financeira global no Brasil. Entretanto, todos prevêem resultado menor do que o registrado no terceiro trimestre.


Bancos e consultorias receberam os dados sobre o bom desempenho da economia no terceiro trimestre como a última boa notícia após a piora da crise global. Isso porque, afirmam os analistas ouvidos pelo Globo, os impactos sobre a confiança dos consumidores e a oferta de crédito para compra de produtos vão provocar a retração do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre deste ano. Segundo reportagem do Globo, nesta terça-fdeira, as previsões são de que a economia vai encolher de 0,4% a 1% entre outubro e dezembro deste ano, frente aos três meses anteriores. Para 2008 como um todo, apostam em alta de 4,9% a 6% e, para 2009, de 1,08% a 3%.

" Ainda vamos refazer as contas, mas agora a projeção deve ficar em torno de estabilidade e crescimento de 0,4% "

Segundo Marcela Prada, economista da Tendências, a queda do PIB no quarto trimestre será de 0,4%. Segundo ela, o resultado será puxado para baixo pelo consumo das famílias, que deve desacelerar após a alta de 7,3% de julho a setembro deste ano ante igual período de 2007.

- A crise não afetou os resultados do PIB do último trimestre. Mas, agora, a demanda está em forte desaceleração. Com a crise e a desconfiança, o consumo tende a recuar como um todo.

- Até ontem, antes da divulgação do PIB do 3º trimestre e também da revisão dos anteriores, a gente trabalhava com um retração do 4º trimestre de 0,5%. Ainda vamos refazer as contas, mas agora a projeção deve ficar em torno de estabilidade e crescimento de 0,4% - explicou o economista Bráulio Borges, da LCA Consultoria, em entrevista ao blog da Míriam Leitão . Ele prevê que a recessão pode ficar para segundo trimestre de 2009.

- Infelizmente, esses números excelentes, muito melhores do que qualquer um podia imaginar, são um retrato do passado... A última projeção que temos é que estamos caminhando em território negativo (no quarto trimestre) - acrescentou Joel Bogdanski, consultor de análise econômica do Itaú.

Apesar dos dados positivos do terceiro trimestre, o economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, continuou com as projeções pessimistas.

- O quarto trimestre, a gente sabe que não está indo nada bem. É um dado totalmente 'retrovisor' (o PIB do 3o trimestre) e pode fazer com que a queda esperada no quarto trimestre (no dado sazonal) seja ainda pior porque a base de comparação ficou maior - afirmou.

" O quarto trimestre, a gente sabe que não está indo nada bem "

O governo, por sua vez, manteve a postura otimista. Ao comemorar os números do terceiro trimestre divulgados nesta terça-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, projetou que o crescimento da economia no último trimestre do ano ficará entre 3% a 3,5% em relação ao mesmo período de 2007.

Segundo Mantega, o PIB deve ficar entre 5% e 5,5 % no ano, semelhante ao mesmo desempenho do ano passado que na sua avaliação é um dado ainda muito expressivo diante da crise internacional que já dura há mais de um ano.

Leia também: Meireles faz projeções positivas para economia brasileira.

" Para chegar a um crescimento de 5,7%, o mesmo de 2007, a expansão teria que ficar em 3,7% "
Já o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) evitou fazer projeções, mas informou que se a economia ficar estagnada no quarto trimestre, na comparação com o mesmo período de 2007, o país terá crescido 4,8% em 2008. Para alcançar uma taxa de 6% este ano, seria necessário que o avanço de outubro a dezembro ficasse em 4,9%, o que já representaria uma desaceleração forte frente ao terceiro trimestre que cresceu 6,8%.

- Para chegar a um crescimento de 5,7%, o mesmo de 2007, a expansão teria que ficar em 3,7% - disse Rebeca Palis, gerente de Contas Trimestrais do IBGE.