terça-feira, 21 de abril de 2009

Prender banqueiro é crime. Torturar empregada, não.

Comentário: Marcelo Itagiba declarou ontem que Paulo Lacerda,
ex-diretor da Polícia Federal, é o mandante do crime de "escutas
ilegais" no caso Satiagraha. A ilegalidade destas escutas nunca foi
provada (então, se põe a culpa em quem permitiu, os juízes).

Já o atual diretor da Polícia Federal tem em seu currículo um caso de
tortura contra a própria empregada. A CPI ignora.

Mas mais do que a CPI, a imprensa, nossa grande imprensa, condena
Paulo Lacerda e silencia sobre Luiz Fernando Corrêa.


Mino Carta/Carta Capital (a exceção)

Que plano republicano é este em um país que se diz República? Até
parece que as maiores ameaças rondam o Brasil, republicano há 120
anos, e sua atual Constituição, velha de 21. O simples anúncio de que
os representantes dos Três Poderes democráticos se reuniram para
assinar o tal imponente e caudaloso documento presta-se a despertar,
muito além de perplexidades, espanto e temores. Ou não, melhor cair na
gargalhada?

Fosse este, ao contrário do que entendia De Gaulle, um país sério,
teríamos fartas razões para recear uma ruptura institucional, a impor
a urgência de um acordo por cima. Sim, convenhamos: a nação não parece
incomodar-se com a solene encenação. Mas, assim como cabe a pergunta
"que República é esta?", também vale outra: que nação é esta?

Interpretação viável. O presidente do STF, Gilmar Mendes, denuncia há
tempo a ameaça de um "Estado policial" pronto a se instalar no País,
se já não teria tomado posse. Não falta quem, do lado oposto, aponte a
tentativa do ministro Mendes de submeter o Brasil a um "Estado
judicial". Estaria aí o confronto em andamento?

Pode ser. Mas não se desenrola também uma luta surda, porém acirrada,
dentro da própria PF? Remonto, talvez instintivamente, à Operação
Satiagraha como a um divisor de águas, momento fatal que separa o
antes do depois. A partir daí o circo arrisca-se ao incêndio, a
despeito da tentativa bombeira da mídia. Com os habeas corpus a Daniel
Dantas, Mendes ganha dimensão extraordinária, reforçada pela história
fantasiosa do pretenso grampo da sua inócua conversa com o senador
Demóstenes, o que o leva a "chamar às falas" o presidente da
República. E o presidente? Acede ao chamado.

Decorrem implacavelmente o desterro do diretor da Abin, Paulo Lacerda,
e as diversas vicissitudes sofridas pelo delegado Protógenes e pelo
juiz Fausto De Sanctis. Recordo que na manhã do dia em que foi
deflagrada a Satiagraha, figura importantíssima do governo (escolho o
superlativo, embora avise não se tratar do presidente Lula) ligou-me
para dizer: "Viu, viu o que a gente fez?"

Caí das nuvens, nada sabia. Ouvi todas as explicações do outro lado da
linha, a começar pela frase: "Prendemos o orelhudo". A figura,
sublinho importantíssima, estava eufórica. Com o decorrer dos dias e
dos meses mudou o tom. Quem sabe a manada tenha entrado na linha.
Encontro motivos, contudo, para acreditar no delegado Protógenes
quando afirma que a Satiagraha recebeu o aval do Palácio do Planalto.

Seria o destino do banqueiro do Opportunity tão decisivo para a saúde
da República? Haja surpresa. De todo modo, enxergo no pacto
republicano o enésimo arreglo para oferecer aos privilegiados do
Brasil ulteriores e mais amplos privilégios. Acerto a bem da patota,
da turma, do grupo. Do estamento, diria Raymundo Faoro, de vivíssima
memória nesta redação. Algo bem mais medíocre do que a célebre
conciliação das elites, mas de efeitos igualmente deletérios para a
maioria dos cidadãos, sufragado pelo apoio, diria mesmo a proteção, da
mídia.

Sim, que República é esta, que nação, que elites... E qual seria o
país sério, democrático e civilizado em que a mídia não repercute uma
grave acusação contra o chefão da polícia, suspeito de atentado aos
direitos humanos?

CartaCapital, com uma reportagem de Leandro Fortes, acusou o diretor
da PF, Luiz Fernando Corrêa, de ter torturado a empregada doméstica da
avó da mulher nas dependências da polícia de Porto Alegre, quando lá
prestava serviço. Corrêa não soube produzir explicações convincentes
para o fato, e muito menos o desmentiu categoricamente. Contou,
entretanto, com o costumeiro silêncio do jornalismo pátrio. Normal,
normalíssimo. Estamos é no Brasil.

Nenhum comentário: