No cenário interno recursos naturais e energéticos e instituições fortes e democráticas para encarar crises políticas; no cenário externo, o crescimento da China e as mudanças na América Latina, fazem do Brasil um dos candidatos à potência.
Eu acrescentaria: crescimento econômico, combate determinado à fome e à miséria, aumento da ascensão social e mudança na política internacional, com o fim da submissão comercial às grandes potências, são pautas já levadas a cabo.
Faltam vastos investimentos em educação, saúde, infraestrutura e saneamento. Os grandes desafios do próximo triênio.
Publicado no The New York Times.
Artigo - O futuro do Brasil é agora
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
NYT: o futuro do Brasil é agora
Roger Cohen
Juan Bautista Alberdi, um constitucionalista e liberal argentino, escreveu em 1837 que "nações, como os homens, não têm asas; precisam atravessar sua jornada a pé, passo a passo". A América Latina, há muito suscetível à miragem utópica de revolucionários e caudilhos e ainda não imune a ela, tem se esforçado para captar a verdade. Mas, como Michael Reid observa em seu novo livro Forgotten continent, democracias de massa têm emergido pela região.
Recentemente, essas democracias têm surgido com uma extraordinária variedade de líderes, incluindo Michelle Bachelet, no Chile; Luiz Inácio Lula da Silva, o metalúrgico que chegou ao governo do Brasil; e a cria-de-caserna Hugo Chávez.
Os resultados são assimétricos. Chávez testou a paciência de todos com uma arrogância movida a petróleo com relação à revolução socialista alada. Mas num passo prosaico, o continente se move em direção à economia global.
Esse progresso chega apesar das enormes desigualdades sociais - que criaram cidades como São Paulo, onde há labirintos de ricos e pobres. Lula chegou ao poder como um reflexo de esperança de que esse abismo pudesse ser transposto, assim como o recente sucesso de Barack Obama e Mike Huckabee reflete uma sociedade faminta por mudança e cansada dos investidores de risco evitando as taxas que todos os cidadãos comuns pagam.
Enquanto caminham, nações também sonham. Democracias são inventivas. Suas imperfeições são muitas, mas também suas renovações e mecanismos. Elas precisam de esperança.
A jornada brasileira tem hesitado com a panacéia de que era um país com um grande futuro condenado à eterna contemplação. Tom Jobim, compositor de Garota de Ipanema, avisou que o Brasil não era para principiantes.
Silencioso, Lula intuiu, com seu pragmatismo astuto - alguém mais é amigo tanto de Chávez quanto do presidente Bush? - que está com a maré a favor de seu país. O futuro do Brasil é agora. Há cinco razões para isso: terra, matéria-prima, energia, meio ambiente e China.
Exportações em alta
Vastidão define o Brasil. O uso agrícola do território não está nem perto da exaustão. O maior exportador de café, carne bovina, açúcar e suco de laranja está rapidamente aumentando as exportações de outros alimentos, como frango (US$ 4,2 bilhões em 2007, mais que os US$ 2,9 bilhões em 2006) e soja. Mais de 220 milhões de acres - uma área maior que a atualmente cultivada - permanece inexplorada fora da Floresta Amazônica.
Outro produto de exportação em crescimento rápido é o minério de ferro. A China, que está investindo pesado no Brasil, quer tudo que o país conseguir produzir, assim como quer comida (bem como a Índia) e energia. O Brasil tem uma abundância de energia e poderia ter muito mais.
Deixemos de lado, por um momento, os vastos recursos hidrelétricos brasileiros e a recente descoberta de um enorme campo de petróleo em águas profundas da costa do Sudeste. O que vai contar ao longo do tempo é sua liderança nos biocombustíveis, particularmente o etanol feito da cana-de-açúcar, que produz oito vezes mais energia por hectare do que o milho usado nos Estados Unidos para obtenção do combustível. Combine isso com a quase ilimitada área de produção e a importância do Brasil entra em foco.
Como Reid escreve: "Se a China estava se tornando a fábrica do mundo e a Índia sua sucursal, o Brasil é a sua fazenda - e potencialmente o centro do meio ambiente".
A liderança do país em combustíveis não-fósseis e a biodiversidade sem paralelo da Floresta Amazônica fazem do Brasil um líder natural no século 21 na batalha contra o aquecimento global.
Nada disso seria significante se o Brasil fosse instável. Mas, assim como a maioria do continente, o país tem se tornado mais previsível. A China percebeu isso e está desenvolvendo rapidamente suas relações comerciais com o Brasil e outras nações latino-americanas. Os Estados Unidos também buscam estender acordos de livre-comércio, com resultados ímpares.
De modo geral, contudo, o continente tem sido deixado de lado pela negligência americana, aguçada pela promessa não cumprida de Bush, antes do 11 de Setembro, de prestar atenção aos mais de 40 milhões de latinos nos Estados Unidos. O próximo presidente deveria olhar para o Sul com prioridade e para o Brasil como o pivô de um compromisso intensificado.
A transformação da América Latina nas últimas décadas tem sido subestimada.
Tem sido política e econômica, mas também cultural. Grandes preconceitos contra o indígena, o mestiço, o mulato foram confrontados e, se não eliminados, questionados. Em termos históricos, tem sido um tempo de fortalecimento dos de pele escura.
As Américas estão mudando e, apesar da retórica antiianque de Chávez, estão se tornando - passo a passo - apenas uma...
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