sábado, 10 de novembro de 2007

O problema do alinhamento da imprensa.

Aí pessoal, o problema do alinhamento da imprensa, que nunca é discutido.

A crítica que sempre externei à imprensa devia-se ao fato de claramente ela ter se alinhado, o que é muito diferente de ser independente.

Na Venezuela, dizem os maiores perseguidos não são os pró-Chavez, nem os anti-Chavez. Mas os que estão no meio, visto que, ou apanham de Chavez, ou apanham da mídia.

A imprensa oposicionista é tão perigosa quanto a governista. Ambas são chapas brancas, visto que, em algum lugar e salvo partidos pequenos, a oposição é poder. E, na luta engajada, sobra hipocrisia e anti jornalismo

Quem tenta, na guerra insana, um ponto de equilíbrio, geralmente é confundido com o defensor do adversário. Quem se posicionou contra os denuncismos e a indústria do escândalo foi condenado por não aderir à falsa indignação.

O que Nassif mostra abaixo é o horror de quem não percebeu a cilada em que estava se metendo.



Política e hipocrisia

Coluna Econômica - 05/10/2007
Nassif.
Na CPI do Mensalão, um dos parlamentares mais críticos e ativos era o deputado federal Eduardo Paes (PSDB-RJ). Batia, questionava, expressava indignação, aparecia.
Esta semana Paes trocou o PSDB pelo PMDB e declarou que, em caso de candidato ao governo do Rio de Janeiro, não abdicará do apoio de Lula. Hipocrisia? Sim. Mas absolutamente usual na política nacional.
Nos seus tempos de oposição, o PT esmerou-se em fazer tempestade em copo d'água para criar crises políticas artificiais ou reais. Como oposição, o PSDB faz o mesmo jogo, a ponto de aliar-se a uma ultra-direita barra –pesada.
Petistas históricos, tucanos históricos estão órfãos. Mas para onde ir?
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De seu lado, a chamada grande mídia usa politicamente os escândalos, denunciando de maneira seletiva. Exemplo? Denunciou-se o "mensalão" do governo federal. Depois, constatou-se que havia um "mensalão" mineiro.
Em breve será revelado o "mensalão" paulista, mostrando alianças entre o ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz e o ex-governador paulista Geraldo Alckmin.
O mesmo esquema controlou a Nossa Caixa e o BRB, financiou as mesmas ONGs e as mesmas publicações ligadas aos tucanos. E, possivelmente, o mesmo Marco Valério estava por trás do esquema Roriz – já que sua agência era uma das que serviam ao GDF (Governo do Distrito Federal).
É questão de tempo para o Ministério Público completar as investigações.
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Todo esse estoque de escândalos fica guardado, como produtos em gôndolas de supermercados. Aí o jornal ou a televisão escolhe o alvo que quer atingir, vai na prateleira, tira o produto, desembrulha e transforma em escândalo.
Os atingidos reagem com a indignação dos inocentes; a oposição, com a indignação dos justos. E ambos sabem que tudo não passa de uma enorme marmelada.
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A tragédia dessa história é que a hipocrisia chegou a tal nível que praticamente transfigurou os partidos políticos. Vinte e cinco anos após a redemocratização, não existem mais partidos políticos programáticos; não existem centros referenciais de pensamento político e econômico; e não existe uma opinião pública que sirva de referência – como ocorreu, bem ou mal, nos anos 80 até meados dos anos 90.
Essa falta de rumo abre espaço para chantagens políticas e jornalísticas de toda espécie. Suponha que, de repente, um presidenciável queira romper com o discurso mercadista e lançar uma nova bandeira.

Imediatamente uma dessas grandes publicações irá até a prateleira, escolherá um escândalo novo ou velho, inédito ou conhecido, e transformará em arma para atingir o indigitado.
Com isso, têm-se hoje presidenciáveis que poderiam estar brandindo um novo discurso, e que quedam inertes, à mercê desse jogo hipócrita.
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Parte da opinião pública se dá conta dessa hipocrisia. Mas para onde caminhar? Partidos políticos, não mais existem. A perda de rumo é total, entre outras coisas porque estão ocorrendo transformações profundas na sociedade brasileira, que irão resultar inexoravelmente em mudanças.
Que tipo de mudanças? Nem mesmo um oráculo poderá prever.

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